A presença do machismo no samba rock


Já tem um bom tempo que venho observando comportamentos machistas dentro do movimento samba rock, não é algo exclusivo deste cenário dançante e musical, mas é uma coisa existente e até onde observo, pouca gente comenta.

Antes queria expor de maneira correta o significado do termo machismo “opinião ou procedimento discriminatórios que negam à mulher as mesmas condições sociais e direitos do homem”, assim fica claro onde ele se apresenta em alguns comportamentos que vou citar agora.

Divulgação - Foto: Samba Rock Na Veia

Divulgação – Foto: Samba Rock Na Veia

Dedico este paragrafo a um fato ocorrido há 4 anos, chegou até minha pessoa uma sugestão de publicação, tratava-se de um vídeo onde nele havia um casal se apresentando, a partir daí já havia o interesse por parte do site Samba Rock Na Veia em publicá-lo, tratava-se de um material pertinente ao conteúdo dessa página na internet. A questão é que ao abrir o vídeo, o título do mesmo fazia menção apenas ao dançarino, era como se a dançarina presente em todos os minutos da mídia simplesmente não existisse. Logo de cara recusei fazer a publicação explicando o motivo. Na minha cabeça o argumento de não constar o nome da mulher presente no vídeo caracterizava machismo além de ferir questões técnicas do jornalismo por não citar elementos fundamentais do fato, no caso, ao menos os nomes das pessoas, o local onde fora gravado o vídeo e créditos de quem o fez. Pois bem, voltando ao fato, pouco tempo depois fui contatado pela dançarina presente no vídeo me questionando por qual motivo eu não faria a publicação no site, ou seja, nem ela havia se dado conta da violência que acabara de sofrer. Quando expliquei ela ficou muito sem graça, na gíria comum “a ficha caiu”. Posteriormente o título do vídeo foi alterado e publicado no site.

O fato acima me fez tomar uma atitude um tanto discreta, mas significativa pelo menos para mim. Toda publicação onde eram citados casais dançando, o nome da mulher passou antes do nome do homem, mesmo que o vídeo fosse incorporado no site vindo do YouTube, era respeitada essa regra. Ninguém, nem mulheres nem homens, nunca nos procurou para dizer que havia percebido esse mero detalhe, mas vamos adiante.

Reprodução da tela do canal de vídeos do site Samba Rock Na Veia - Em destaque os vídeos de casais

Reprodução da tela do canal de vídeos do site Samba Rock Na Veia – Em destaque os vídeos de casais

Já presenciei também, inúmeras vezes, em campeonatos de samba rock que acompanhei, pessoas fazerem referência ao casal dizendo apenas o nome do homem “Você viu? Fulano ganhou de Ciclano” ou “Beltrano é @#$%&, arregaçou e foi campeão”. Como assim? Sozinho? E posso afirmar que isso não aconteceu apenas nos campeonatos que estive presente, é algo infelizmente comum.

Também acho extremamente machista o homem que se dirige a outro homem e pergunta “posso dançar com ela?”. Vamos explicar uma coisa, ela tem opinião e sabe responder sobre suas vontades, então ela deve ser perguntada se quer ou não dançar e não o homem que a acompanha como se ele fosse seu “dono”, não, não é. É muito importante também citar não haver qualquer necessidade de explicação caso haja recusa por parte da mulher, é uma escolha querer dançar e não uma obrigação.

Se formos mais afundo ainda nessa questão, o ato da dança por si só já é machista. Essa coisa de que o homem é quem deve conduzir carrega uma certa valentia ostentatória e exagerada. E se a mulher tiver vontade e principalmente capacidade de o fazer? É comum ver locais, por falta de homens em número, mulheres dançando com mulheres, ou seja, uma delas está fazendo a condução. Por qual motivo essa mulher condutora é impedida de conduzir um homem em um baile? Por causa do machismo! Existe até mesmo um pouco do pensamento homofóbico por esse homem entender que será tachado de “a mulhezinha da dança” por outros homens.

O machismo exclui as mulheres do samba rock quando voltamos no tempo e passamos a ver o movimento se desdobrando nas noites paulistanas, com o passar dos anos profissionais foram surgindo e junto caminhava a discriminação da mulher frequentadora constante de bailes, não era “certo” a mulher ir ao baile sozinha, dançar com vários homens e ir embora com aquele que ela decidisse voltar para casa. A questão é que vários homens faziam isso e com músicos e discotecários (DJs) a coisa não era diferente, criou-se então todo um cenário artístico desproporcionalmente repleto de homens. Posso estar cometendo um grande equívoco, mas desconheço uma banda sequer de samba rock formada apenas ou em sua maioria por mulheres. Existem mulheres discotecando, mesmo assim em números muito menores se comparados aos homens.

No campo musical existe uma variedade de canções fazendo referência à mulher. Há composições com adjetivos poeticamente citados de maneira enaltecedora, porém em outros casos alguns extremamente grosseiros atribuídos ao seu corpo ou a sua suposta condição favorável à prática sexual. Com uma levada propícia para se dançar samba rock a música “Trepadeira” do rapper Emicida com participação de Wilson das Neves escancara isso infelizmente.

Se formos considerar os cinco componentes que formam a cultura samba rock (dançarino, discotecário (DJ), baile, músico e professor) e tentarmos enxergar a presença da mulher em cada um deles, fica evidente a falta de representação nem próxima da metade em discotecário (DJ), baile (aqui como produtoras), músico e professor. Somente no elemento dançarino podemos dizer que a mulher representa pouco mais ou mais da metade de praticantes dentro do movimento. Se por definição o samba rock nasceu como dança e posteriormente teve atribuída a música, e seus cinco componentes que fazem girar esse movimento possuem uma representatividade feminina muito baixa, podemos afirmar categoricamente que o machismo está mais do que presente no samba rock, desde suas raízes até dias atuais.

Samba Rock Na Veia
Samba rock e outras culturas

13 Comments

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  1. 1
    Van Oliveira

    Inevitável não comentar e contribuir com o que vivi no Samba-rock.
    Em 2006, quando comecei a de fato dançar e a fazer vídeos, percebi que eles eram sempre nomeados da seguinte forma: Fulano e a fulana com isso, resolvi mudar essa parada. Basta ir no meu canal do YouTube e ver que meu nome sempre vem a frente do cavalheiro.
    Lembro-me de algo que me marcou muito… Quando eu e o meu parceiro na época, conseguimos fazer um passo extremamente difícil tecnicamente, o reconhecimento foi para ele.
    Outro fato que você cita, sou sua prova viva. Ao sermos campeões em 2007, somente ele foi erguido pela platéia e só o nome dele ecoava na multidão.
    Só que eu, como exceção, tive a sorte de NÃO ter um parceiro machista, ele reconhecia e muito.
    Até hoje muitas pessoas me perguntam: Porque você não dança com todos os cavalheiros?
    Aí está a resposta, não danço com cavalheiros machistas.

  2. 2
    Cristiano da Degolação

    A verdade é que depois que virou modinha o Samba Rock perdeu a graça, era gostoso quando era dançado nas festas de famílias da periferia, famílias essas que eram essencialmente negras. Ninguém competia com ninguém, não existiam “dançarinos” e sim pessoas se divertindo.
    Falando sobre o texto acredito que o machismo é ruim, como é ruim hoje existir um antropólogo especialista em uma coisa natural como dançar e se divertir. Precisamos parar de teorizar, criar conspirações, ver pêlo em ovo e respeitar mais o próximo só assim o machismo e todos os “ismos” serão colocado de lado em nossa sociedade….

  3. 3
    J Leonardo

    Esse texto está muito bom! Refletir sobre a força e a significância da dança na expressão de cada um (e se há parte menor ou maior na dança) é muito importante. Aos condutores e condutoras, que experimentem o outro lado, e aos conduzidos e conduzidas, que também o façam! Ao Nego Junior… bom, esse texto está dentro da nossa roda de dança exatamente agora! (: Abraço!

  4. 4
    Daniel Nascimento

    Parabéns ao Nego Jr. e a todos do sambarocknaveia pela questão apresentada, pois se pararmos pra prestar atenção nesta questão do machismo, não só no meio do samba rock, mas em nossa sociedade machista mesmo estando no século XXI. A mulher tem uma participação muito importante na dança e na sociedade em geral, onde merece ser reconhecida e não apenas uma “sobra ou objeto ” de seus parceiros…
    Aproveitando a oportunidade, desejo a todas as mulheres um abençoado e mericido feliz dia da mulher, pois vocês merecem, não só neste dia 08 de Março, mas em todos os dias serem respeitadas e reconhecidas por suas conquistas pessoais e profissionais dentro desta sociedade machista!

  5. 5
    Nego Júnior

    Salve Cristiano da Degolação, muito obrigado pelo comentário.
    O texto é apenas uma reflexão sobre o que presenciei ao longo dos anos curtindo samba rock. E esse “refletir” não vai eliminar o meu “se divertir”, muito pelo contrário, farei ele ainda melhor.
    Moro no Capão Redondo e até hoje dançamos samba rock nas festas de família, estive semana passada na Brasilândia e vi o povo dançando na laje e hoje vou colar na Vila Andrade no aniversário de uma amiga e o pessoal lá também cruza os braços, principalmente os tios e as tias dela. Concordo que hoje isso é mais raro, mas ainda existe na minha visão pessoal.

    Grande abraço

  6. 7
    Nego Júnior

    Salve Daniel Nascimento, valeu por comentar, concordo contigo. O machismo é estrutural e institucional na sociedade. Fica aí a reflexão.

    Grande abraço mano

  7. 8
    Nego Júnior

    Oi Van, obrigado por comentar, sua contribuição é um fato que inclusive tá na minha memória. Muito importante você citar isso aqui, beijo

  8. 9
    Zé Xavier

    Eu não vejo machismo no homem conduzir. É uma simples definição de papéis. Facilita aprender se você faz essa divisão. Precisamos facilitar a dança para as pessoas. Tenho amigas que conduzem bem, mas isso vem com muita prática. Pra aprender, essa divisão simplifica.

    Às vezes, a falta de amor na vida cotidiana torna difícil pensar sobre alguns temas. Pessoas que se amam, se doam. Não ficam debatendo igualdade (ah eu conduzi 5 vezes, agora vc conduz 5 também, ESSE É O CERTO). Quando há o mel do amor nas relações, se um não quer conduzir (só quer ser conduzido) grande coisa! O que importa é o olho no olho, a parceria da alma. Se formos estabelecer que O CERTO é os dois conduzirem senão é machismo, estaremos endurecendo onde temos que ser flexíveis. A igualdade não é meio a meio em tudo. Tomaládacá. Sem amor e sem confiança não é possível viver a igualdade. Às vezes, 90% contra 10% pode ser igualdade num cenário maior.

    A história do “campeão de samba rock” é um fato. E no dia a dia, a gente nem percebe isto. Bacana a iniciativa de alterar a descrição dos vídeos.

  9. 10
    Cibele

    Realmente.. isso é muito frequente em vários aspectos de nossas vidas.. inclusive na dança.
    Infelizmente a própria mulher, devudo a vários fatores e aspectos tbm é machista.
    Muitas das vezes, ao conversar com amigas vejo como elas se sentem em relação a coisas simples. Como por exemplo, chamar um cara pra dançar. Muitas não se vêem nesse direto e acabam por ficar horas paradas por isso.
    Sem contar em aceitarmos certos comerciais de tv, que nos mostram como objeto e achamos normal.
    Gostei da publicação! Nos leva a refletir sobre muita coisa. Parabéns Junior! 🙂

  10. 11
    REgina Alves

    Obrigada Junior por colocar a todos algo que todos fingem que nao existe, tal com o racismo no Brasil. O machismo no samba rock é fato e evidente, mas infelizmente as mulheres não se posicionam como você mesmo mencionou no seu texto com a reclamação da dancarina!Mais de uma vez já acharam que meus parceiros fossem meu “marido” ou meu “namorado” só porque eles sempre estava comigo nos bailes ou por treinarmos juntos. Infelizmente apesar do mundo de hoje uma mulher estar sozinha, ter sua opiniao propria ainda é mal “visto” pelos homens!A mulherada precisa se posicionar e mostrar que ninguem danca sozinho!!!A danca é feita por um casal!!!!!!Abraços!

  11. 12
    Maysa

    Parabéns Nego Jr por nos apresentar esta questão. Ja havia algum tempo que eu vinha pensando nisso, então achei muito bom ler seu texto. Tenho uma certa experiência com este fato. Não diretamente do meu parceiro de dança até então, mas das pessoas que nos acompanhavam. Nós desenvolviamos um projeto social no qual, através do samba rock, abrimos um canal de comunicação com os jovens e demais pessoas da comunidade e assim, contribuímos para a divulgação do samba rock na cidade. No entanto, assim como a Val Oliveira citou, quando conseguíamos desenvolver um passo mais difícil, mais elaborado, o mérito primeiramente ia para ele. E isso incomodava um pouco sim, pois sem a parceira ali do lado, o cavalheiro não sairia da base ou alguns giros… Admiro o trabalho de algumas mulheres que estão dando mais ênfase à dama na dança com passos direcionados a elas. Como “é o cavalheiro quem conduz” a dança, muita vezes a dama fica em segundo plano, ainda que sutilmente, dependendo do parceiro com quem ela dança. Por isso que ainda prefiro dançar o samba rock clássico, aquele que nossos pais, tios e avós dançam, ao invés do samba rock moderno. Nada contra claro, pois adoro esta dança e tem pessoas que dançam muito bem. Mas sou fã daquela harmonia e sinal de respeito e cumplicidade que os casais mais antigos demonstram enquanto dançam… pois percebo que ali é possível ver que o cavalheiro dança para a dama e vice e versa.

  12. 13
    Emidio Paixão

    Ola …Junior Muito legal este texto …Penso de forma parecida com o que vc falou mas percebo que algumas coisas são feitas sem pensar eu no passado postava vídeo de samba rock mesmo sabendo da Importância da mulher e dançarina confesso que devo ter cometido este erro algumas vezes (sobre não colocar nome da dançarina as vezes por esquecer ou as vezes por não saber o nome ou por outro motivo ) Mas algumas coisas mesmo vendo sua observação não vejo muito como fazer diferente quando numa balada de samba rock só samba rock eu não costumo pedir para o homem para dançar com a mulher , mas numa balada nostalgia ou pior numa balada de samba vou continuar fazendo pelo seguinte motivo eu e você e galera da dança vai para dançar e se divertir mas numa balada de samba ou nostalgia não da pra adivinhar o que aquele cara que esta acompanhando a mulher pensa( as vezes ele acredita sim ser proprietário da mulher e ela também acredita)
    Ai pra evitar briga ou coisa pior vou continuar tendo esta postura mas não por não respeitar a mulher mas sim como uma medida de evitar problemas .
    Parabéns pelo seu texto mas isto deve ser também falado as vezes que tiver oportunidade pois sabemos que a maioria não gosta de ler principalmente texto um pouco maior

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