Quando você tem vários motivos para não fazer um baile de samba rock


Por Nego Júnior

Talvez seja um pouco pessimista o título desta publicação, mas eu prefiro encará-lo como um desafio a ser vencido, e quando me refiro ao futuro é justamente por entender que ele ainda não foi. Um dia eu acredito que será, tenho fé.

Samba Rock Plural - Foto: Nilson Leal

Samba Rock Plural – Foto: Nilson Leal

Anteontem foi realizada mais uma edição do Samba Rock Plural, um projeto para reunir diversas linguagens artísticas e culturais do samba rock ou de outros estilos que dialogam com essa cultura. Escrito em 2012 por integrantes do coletivo Samba Rock Na Veia, o projeto passou a integrar a programação cultural da Casa das Caldeiras aos domingos. Inicialmente o piloto chamava-se “Samba Rock nas Caldeiras” e posteriormente à aceitação no espaço, deu-se lugar ao projeto pelo qual o coletivo entrou na Casa, o Samba Rock Plural. São ao todo nove edições do Plural, incluindo a última realizada neste domingo, 08/11.

Queria apenas situar algumas pessoas com essa breve descrição do projeto para seguir em frente no assunto título desse artigo. Vamos lá.

Primeiramente há de se avaliar, brevemente, o movimento samba rock fazendo um paralelo com outros movimentos artísticos e culturais presentes em São Paulo, cidade de sua origem e onde seus desdobramentos se mantém resistentes até dias atuais. Frente ao hip-hop, samba, pagode, sertanejo, forró, funk etc., o samba rock tem uma posição inferior diante esses demais movimentos citados, para alguns é como se ele nem existisse, simplesmente não há qualquer preocupação com sua presença no que diz respeito a perder público de qualquer um desses ritmos citados ao samba rock.

A falta de penetração na mídia ocasiona também a falta de interesse em investimento nas ações criadas com essa temática. Onde não há público, não há voto, não há político, não há recurso público sendo investido e não há crescimento sem investimento. Uma triste realidade para uma realidade não tão real assim. O samba rock tem sim público, não só as pessoas que lotavam os bailes black e nostalgia dos anos 1970, 1980 e 1990, como também o público jovem que hoje preenche as pistas dançando samba rock ao som de bandas (sim, elas existem) e DJs. Há de se ressaltar à dança atual uma presença maior de “nós” mais sofisticados e músicas remixadas num compasso mais acelerado que as canções de antigamente. Essa carência de investimento também acontece no setor privado onde a empresa dificilmente enxerga uma massa de consumidores dentro do movimento, na TV o samba rock surge (muito) esporadicamente numa reportagem ou na trilha sonora de algum comercial de 30 segundos. E mesmo assim, nem protagonista, nem movimento, são capazes de estender esse curto tempo de “fama” ou fazer lucrar com ele por um longo prazo.

Outros caminhos levam a crer na falta de apelo em relação a assuntos como sexo, violência e drogas. Sabe-se que movimentos marginalizados como o samba, hip-hop, atualmente o funk, beberam e bebem dessa fonte fazendo durar por mais tempo um holofote sobre eles. E mesmo que negativo e doloroso durante um período, com o passar do tempo a organização, união e militância fizeram a sociedade entender a devida relevância cultural e comercial de cada um desses movimentos.

O samba rock é segmentado demais, falta de investimento e carência de apelo além da relevância cultural e bem estar proporcionado. Esses são apenas alguns pontos mais abrangentes e externos explicativos em relação à posição ocupada pelo samba rock no cenário da cultura negra em São Paulo.

Agora ao olhar para dentro do movimento o número de questões a serem levantadas é ainda maior, tendo como mais grave a falta de organização, planejamento e união.
Quando falamos em organização, é claro que muito disso depende de estrutura e investimento para a “coisa” acontecer, mas há de se levar em consideração a busca por realizar atividades ou eventos “na raça”, quando seria possível buscar recursos públicos ou privados de valores menos expressivos, porém significativos e propensos a potencializar coletivos, grupos ou até mesmo profissionais diretamente. Uma parte considerável de agentes atuantes no movimento busca resultados e o tal “fazer história” imaginando algo impactante, porém esquecem de investir no preparo e sustentabilidade dos projetos. As vezes faltam coisas básicas como material de comunicação adequado, profissionais de produção, acessibilidade ao locais, respeito à diversidade etc. Não é difícil ver organizadores de eventos dentro do movimento samba rock expor opiniões homofóbicas na internet, infelizmente não há como separar uma coisa da outra, trabalhar com o público requer, em grande parte, aceitá-lo dentro das suas opções em relação ao que está sendo ofertado.

O planejamento, ou melhor dizendo, a falta dele, muitas vezes acaba por conduzir projetos ao seu fim, as vezes muito antes mesmo do tempo de duração previsto. Durante a concepção de um projeto, pensar no seu término não é pessimismo, longe disso, um bom planejador faz isso para prever possíveis fracassos. Saber equilibrar ousadia, criatividade e planejamento ajudam a garantir a longevidade de um trabalho. É preciso repetir esse exercício muito mais vezes que tirar foto de si próprio(a) —selfie — durante uma atividade que já é sua.

União talvez seja a palavra que mais se escuta nos corredores imaginários do movimento. A busca por união tem feito alguns grupos se formarem e com isso todos, além do próprio samba rock, têm a ganhar. Mas como essa união depende de pessoas, não preciso dizer o quão difícil isso está para acontecer.

Como aceitar um evento no mesmo dia que o seu e não acreditar numa possível disputa por público?

Como deixar de ir no evento de um agente do movimento e não ouvir “você não foi no meu evento, que defensor(a) do samba rock é você?”

Como colocar o samba rock na frente do próprio ego ou obsessão em se promover acima de tudo?

Como falar bem e divulgar outros agentes do movimento acreditando num ciclo que todos possam ser beneficiados com isso?

Como buscar qualidades nas coisas aonde geralmente enxerga-se somente defeitos?

Como falar menos e fazer mais?

Questões que gerariam incríveis debates…

Agora volto ao Samba Rock Plural para tentar concluir meu raciocínio. Após esta nona edição vejo o quanto estamos no caminho, mas o quanto ainda temos muito a seguir pela frente. A cada evento noto a evolução de algum item citado acima e vejo o quão difícil é remar contra a maré insistindo em manter essa cultura viva.

Precisamos assumir nossas fraquezas, reconhecer nossos erros e acima de tudo buscar sempre fazer mais e melhor. Eu poderia parafrasear tudo isso como gotas de incentivo para você que leu esse texto até aqui, mas não, expresso aqui minha visão com muita vontade de desistir, mas com mais vontade ainda de seguir em frente. Nada disso é teoria, são vivências reais adquiridas ao longo de 2 anos de Plural dos quais vou atrás de mais 2, 3, 4 ou quantos mais forem necessários para ver esse movimento maior em relação à época que passei a fazer parte dele.

Tenho vários motivos para não fazer um baile de samba rock, mas tenho o dobro de motivos para realizá-lo.

Em nome do coletivo Samba Rock Na Veia, em nome do evento Samba Rock Plural, meu muito abrigado ao movimento samba rock e a todas e todos que fazem essa roda girar!

3 Comments

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  1. 1
    Zan - Rapaziada Negro é Lindo

    Fico muito FELIZ cada vez que me deparo com depoimentos apaixonados como o seu !…
    É super gratificante ver a juventude abraçando a causa… Encontrando no Sambarock, não apenas um Dança, mas Cultura, Alto Estima, Respeito…

    Sabemos da Luta que é fazer parte da RESISTÊNCIA Cultural, sem apoio da Mídia ou de Autoridades, mas é como você bem disse, Temos vários motivos para não fazer um baile de samba rock, mas temos o dobro de motivos para realizá-lo.

  2. 2
    Sergio Luiz (Prof. Sérgio)

    Bem, compartilho do posicionamento exposto. A muito se percebe uma sobreposição de egos pessoais sobre a arte do samba rock. Também foi muito oportuno a abordagem sobre os aspectos de planejamento e sustentabilidade de um projeto. Caro amigo, entendo que existem inúmeras outras razões para se ampliar o debate sobre os rumos e o próprio processo evolutivo desse segmento cultural, entendo que seu texto é o ponto seminal para isso. Abraço.

  3. 3
    Cássio de Fernando

    A cada testemunho que vejo/leio sobre como tudo é tão difícil de se realizar, sinto mais ainda a necessidade de continuar com meu trabalho, com o trabalho da banda da qual faço parte (Nego Dito) e que encara de uma forma tão bonita e respeitosa toda esta história do gênero, que nos motiva a cada dia (mesmo estando no interior de São Paulo). A cada um, o seu caminho e fardo proporcional ao seu objetivo. Parabéns pela resistência e organização. Grande abraço e sucesso no empreendimento!

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